Nosso Jardim

Ano V, Nº 15

Editorial

O Mundo é Verdadeiro

Criada por Rudolf Steiner como um dos pilares da Antroposofia, a Teoria dos Setênios organiza a vida em ciclos de sete anos a partir da observação dos ciclos da natureza. No ano que vem, nossa escola, que nasceu em 2004, entra no terceiro ciclo, o último dos chamados “Setênios do Corpo”. Por isso, neste editorial, relembramos algumas das características do Terceiro Setênio. Esse período, regido pela liberdade, é uma fase de construção da identidade. A sociedade passa a desempenhar um papel preponderante, que no passado foi exercido pela família e pela escola. Não se trata de uma substituição destes por aquela, mas sim da ampliação de forças que, unidas, exercem influência sobre a formação do jovem. Ele necessita de um espaço libertador, externo e interno, para vivenciar a relação entre as forças cósmicas e terrestres. Nessa busca de si mesmo, muitas vezes, o jovem ressignifica sua atuação e sua forma de ser e pensar em casa, na escola e na sociedade. Com a ajuda da comunidade em que habita, ele atravessa esse processo rico de crescimento para dele sair ainda mais fortalecido. Parabéns à comunidade de pais, professores, funcionários e colaboradores da Acalanto que, unidos, vão conduzi-la pelo Terceiro Setênio.

A busca diária do educador Waldorf

O caminho da educação, na Pedagogia Waldorf, é transformador tanto para o aluno quanto para o professor

Por Suelene Stival

Educar é uma enorme responsabilidade. E um professor de classe não pode, jamais, deixar de estudar, de se reciclar, de se transformar. Foi com o intuito de facilitar esse processo que em julho passado o Fundo de Formação de Professores de nossa escola nos enviou, a mim e às professoras Luciana Silva e Anyeelly Martins, para Brasília. Fomos participar do V Congresso Brasil de Pedagogia Waldorf, organizado pela Escola Waldorf Moara de Brasília, com apoio da Federação das Escolas Waldorf no Brasil. O palestrante era o professor Claus-Peter Röh, co-dirigente da Seção Pedagógica do Goetheanum, centro mundial do Movimento Antroposófico.

Röh nos trouxe, com grande beleza e Maestria, o tema principal “As forças transformadoras da alma humana na percepção, na fantasia, na música e no julgamento – O  corpo astral”. E discorreu também sobre “A dinâmica entre a meditação e o cotidiano escolar”. Suas explanações se basearam nas experiências vivenciadas em sala de aula. O professor Röh já conduziu três turmas do 1º ao 8º ano. É com gratidão que compartilho a seguir alguns dos preciosos momentos do Congresso.

Os quatro membros – Rudolf Steiner nos convida a conhecer a essência do homem em desenvolvimento a partir da observação da natureza oculta do ser humano em geral. Como educadores, atuamos sobre quatro membros do ser em desenvolvimento. Esses membros, por sua vez, não se desenvolvem igualmente na mesma fase da vida após o nascimento. Surgem como germes e vão amadurecendo ao longo dos três primeiros setênios. São libertados gradativamente pela ação de forças terrenas e cósmicas. Recebem influências dos reinos da natureza e das esferas celestiais. Tais membros evoluem de maneira diversificada em várias fases da vida, conduzidas pelas leis da evolução humana,  fundamentando o ensino Antroposófico. 

O primeiro membro a ser libertado é o corpo físico. Antes protegido pelo envoltório materno, ele nasce no momento em que o corpo recebe as ações do ambiente físico do mundo exterior. Este corpo necessita de canções com beleza sonora pois, nessa fase, as forças de imitação atuam e absorvem sensorialmente tudo ao seu redor. Principalmente o ritmo do trabalho primordial do homem, em seus gestos de amor e bondade, que plasmam e  formam os outros membros que paulatinamente começam a amadurecer.

O segundo membro nasce por volta dos sete anos. Embora sua atuação pelas forças do crescimento se desenvolva gradativamente, ele culmina com o início do irromper dos dentes. É o corpo etérico, também conhecido por corpo vital, liberto e pleno de memória para o processo de alfabetização que se inicia pela prontidão escolar. Impulsos que antes repousavam no ventre materno agora estão autônomos em seu crescimento. Este segundo membro necessita de imagens e fantasias em sua relação com a natureza e o conhecimento do mundo que o cerca. É importante que a criança aprenda sobre os segredos da natureza por meio de imagens e não por conceitos áridos e abstratos. 

As impressões que atuarão na alma da criança, permeadas pelo falar artístico, contos de fadas,  fábulas, histórias e lendas de santos, irão fecundar nela as forças do universo espiritual. Quando o mundo é apresentado no ensino sob esse olhar belo e artístico, esse membro se apresenta harmônico e com vitalidade. Durante o segundo setênio, os sentimentos deverão ser  permeados por elementos pictóricos e líricos no ensino, preparando a criança para o início da puberdade, momento do nascimento do corpo astral, o terceiro membro, que nasce na alma.

Aquilo que fora assimilado anteriormente no primeiro setênio, pelas forças atuantes do crescimento e pela imitação no querer, depois entre a troca dos dentes até o início da puberdade, por meio do plástico-pictórico no sentir, será agora dirigido ao adolescente por meio das forças linguístico-musicais que penetrarão no organismo advindas das esferas cósmicas. Chegamos assim, ao nascimento do corpo astral, com o impulso de amadurecer a capacidade  de julgar, formando um juízo sobre o que foi aprendido no passado.

Surgem situações como medo e  tensão, que poderão ser superadas com a ajuda dos conteúdos anímicos do currículo escolar Waldorf. Ele será dirigido para dar sua contribuição histórica, participando do desenvolvimento pelo futuro social.

O adolescente será capaz de olhar para dentro de si e se confrontar com o que brotou interiormente em sua essência, por meio da compreensão de si mesmo, iniciando seu caminho à vivência da liberdade. “Liberdade é algo que não posso dar ao ser humano, ele tem de vivenciá-la em si mesmo.” Rudolf Steiner (GA 308) 

O caminho do professor – Como veem, o caminho do educador é um caminho meditativo e estabelece uma relação de grande responsabilidade com a criança. É um caminho transformador para ambos. Não se atua do ponto de vista pedagógico diretamente sobre a individualidade da criança. Segundo a ciência espiritual, forças individuais atuam indiretamente entre o educador e seus alunos. No primeiro setênio, o etérico do professor atuará sobre a criança, no segundo setênio  será a vez do corpo astral do professor atuar, e no terceiro setênio, os jovens aguardam atuação da individualidade do professor. 

O caminho de desenvolvimento espiritual e meditativo do professor torna o seu corpo astral um órgão de percepção para observar e compreender a criança em seu processo pedagógico. Há situações especiais que são vivenciadas pelo professor. Tantas transformações e mudanças exigem maior harmonização em sua astralidade para que os desconfortos do meio exterior não lhe tirem a paz e a calma interior. 

Durante o sono, nosso corpo físico e nosso corpo etérico se refazem e se recuperam em sua vitalidade. Da mesma forma, também o corpo astral  e o quarto membro do ser humano, a individualidade, chamada de EU, se recuperam em sua harmonia ao retornarem, enquanto dormimos, para  as esferas cósmicas do zodíaco. Ao acordarmos, despertos para um novo dia, toda nossa corporalidade está organizada  com novas impressões formadas a partir do que foi vivenciado no dia anterior. 

O educador Waldorf busca diariamente, em seu caminho espiritual, se fortificar e se harmonizar, para que todo seu processo seja transformado e tudo aquilo que foi vivenciado durante o dia, seja levado para o sono. Juntamente com os exercícios meditativos para o professor, as vivências irão ressoar no mundo espiritual e retornarão com novas impressões e sabedoria para atuar pedagogicamente em todo o âmbito escolar. 

Surgirão, dessa forma, novas possibilidades para que o dia seguinte se desenvolva por meio da atividade que a alma humana engendra ativamente, transformando com novas forças. Assim o corpo astral atua através do tempo, no passado, no presente e no futuro, para dentro da vida. Do mesmo modo, todo o currículo da pedagogia é conduzido. Levando o conteúdo do dia para que seja transformado durante a noite, retornando com mais sentido e significado no dia seguinte.  

Suelene Stival é professora de classe do 2º ano do Ensino Fundamental

Depoimento

Nosso filho ganhou uma escola; nós ganhamos uma família

Euder Ribeiro

 

Faz coisa de um ano, agora, que pela primeira vez estivemos na Escola Waldorf Acalanto. Analisávamos possibilidade de mudarmos de Salvador, na Bahia, para Holambra. E assim que pisamos na escola, se abriu aos nossos olhos, meu e de Fabiana, minha esposa, um novo mundo para o desenvolvimento de nosso filho Gabriel, de 4 anos.

Havíamos ouvido falar sobre a Pedagogia Waldorf alguns meses antes, quando recebíamos a visita de um casal de amigos, Rene e Marijke. Conforme ouvíamos o que eles nos contavam, tudo começou a fazer mais sentido, ser mais coerente com o que almejávamos para a educação holística do Gabriel. Por isso, decidimos conhecer a escola.

A mudança para Holambra finalmente se concretizou no final de maio deste ano. E logo matriculamos o Gabriel na Acalanto, para início das atividades no segundo semestre.

Hoje, passados quase três meses, notamos que houve uma perfeita adaptação dele à escola e aos novos amigos. E nossa também. Nós, como pais, passamos a vivenciar uma experiência totalmente nova e gratificante: a de se sentir parte da escola, ao participar das atividades que ali acontecem. Em casa, nos impressiona a transformação de comportamento em nosso filho. Gabriel demonstra maior independência, colabora mais nas atividades de casa. Um resultado bastante satisfatório em tão pouco tempo e que nos tem dado a certeza de termos feito a escolha certa.

É difícil não comparar o que vivemos hoje à educação tradicional que antes seguíamos. E fica claro para nós o quão distantes estávamos, naquele modelo, do processo de formação de nosso filho. Porque hoje, não é apenas o meu filho que está na escola Waldorf. Nós, como família, estamos lá também, no dia a dia. E muito felizes por termos nos tornado parte dessa grande familia chamada Acalanto.

Euder Ribeiro, pai de Gabriel, do Jardim.

 

Meu filho está pronto para ler?

Enquanto o mundo acelera a prontidão para alfabetização, a Pedagogia Waldorf nos ensina a importância de entender e respeitar o ritmo da criança

Por Ferdinando Casagrande

No banco ensolarado do jardim ela tomava sol. A bengala ao lado, rosário na mão, ela recompensava a companhia que eu lhe fazia recheando minha imaginação com histórias sobre a infância feliz nos campos da Serra da Estrela, sobre as cerejas que comia do pé e a neve branca como açúcar que ela pegava com a mão no parapeito da janela. “A neve era doce?”, eu perguntava. Ela ria da minha dúvida. “Quando vou poder ler histórias tão bonitas quanto as suas?” Minha avó então me afagava os cachos e dizia, com o sotaque português que uma vida inteira no Brasil jamais apagou: “Não te apresses, meu neto. A hora chegará. Por enquanto, te ocupas de brincar que é o melhor que podes fazer.”

Eu devia ter uns cinco anos e minha avó, em sua sabedoria de camponesa que só foi alfabetizada aos 9 anos, sabia que naquela idade eu não estava pronto para as exigências da escolarização. Algo que hoje em dia, infelizmente, formuladores de políticas educacionais parecem prontos a ignorar. Em muitos países, incluindo o nosso, currículos e propostas pedagógicas vêm sendo formatadas para acelerar a chegada da criança à prontidão para a alfabetização.

A professora Erika Chistakis, pesquisadora da Universidade de Yale e especializada em Educação Infantil, relata em seu mais recente livro  (“A Importância de Ser Pequeno: o que Crianças de Pré-Escola Realmente Precisam dos Adultos”, fevereiro de 2016) que as transformações nessa  direção começaram há duas décadas nos Estados Unidos. “As crianças são encorajadas, já a partir dos 4 anos de idade, a trabalhar por longos períodos sentadas na cadeira e têm metas de aprendizado a atingir”, afirma Erika. “Tudo com o objetivo de prepará-las, o quanto antes, para o ritmo da rotina escolar e o início da alfabetização.” 

Na pedagogia Waldorf, felizmente, seguimos um caminho diferente. A avaliação sobre a prontidão escolar de um aluno se baseia na observação de uma série de fatores que indicam quando a criança está realmente pronta para iniciar com conteúdos intelectuais. Ao invés de pressionar a chegada a esse ponto, o papel do educador é criar as condições ideais para que a criança conquiste naturalmente essa prontidão, por meio do brincar, do exercitar-se, da fantasia. “Quando se fala em prontidão para a alfabetização, logo se pensa em leitura e escrita”, explica Pilar Tetilla Manzano Borba, terapeuta ocupacional pós-graduada em Antroposofia na Saúde e tutora do Jardim de Infância na Acalanto. “Prontidão escolar, porém, é muito mais do que isso.”

Pilar explica que a prontidão só ocorre quando a criança consegue perceber sensorialmente formas, orientar-se no espaço, perceber direções, lateralidade e ter equilíbrio. “Ela também precisa saber ouvir, concentrar-se, orientar-se no ritmo, manter a atenção”, ensina. “E, sobretudo, ela precisa conhecer o sentido do que está percebendo, conhecer as palavras, suas relações e seu simbolismo.”

Uma criança que ainda não controla o corpo, ou inibe movimentos amplos para usar motricidade fina, por exemplo, precisa de mais tempo no Jardim de Infância para se desenvolver. Pillar explica que a aquisição das habilidades motoras finas exigidas pelo trabalho de escrita só ocorre depois de a criança ter usado o seu corpo todo nas brincadeiras livres (como rolar no chão, se arrastar, engatinhar, cambalhotar, pular, andar, correr, subir e descer escadas) e de parquinho (como balanço, escorregador, trepa-trepa, gira-gira, gangorra, terra, areia e água).

“As brincadeiras colaboram para a aquisição da coordenação motora, para o equilíbrio e a percepção corporal de si e sua relação com o espaço circundante”, explica Pilar. “Ao vivenciar ativamente  as três dimensões no espaço, a criança se prepara para a aquisição da escrita e da leitura.”

Apesar de vivermos num mundo repleto de letras – nos anúncios, nos outdoors, nas embalagens, nas roupas, nos tapetes –, a criança só conseguirá ler e escrever quando estiver neurologicamente madura para isso. “Tanto os educadores infantis quanto os professores do Ensino Fundamental precisam entender como se processa o desenvolvimento neurológico infantil”, defende Pilar. “Somente dessa forma eles podem programar suas aulas em favor da criança e não atrapalhando seu desenvolvimento neuropsicomotor.” 

Em seu artigo “A integração das Barreira Medianas e as Brincadeiras de Roda”, Pilar cita a integração da Linha Média Vertical, que se dá por volta dos 5-6 anos. Essa barreira ajuda a criança a viver os dois lados do corpo, antes que a dominância de um deles se estabeleça. Por isso, muito comumente, os pequenos são ambidestros nos primeiros anos de vida. “Exigir uma atividade de coordenação motora fina, como bordar ou escrever, antes que a criança tenha integrada essa linha pode levá-la a lateralizar-se muito cedo”, explica Pilar. “Isso pode gerar problemas de aprendizagem futuros, pois não houve a integração de cada lado do corpo separadamente.”

Além dos aspectos neurológicos, Pilar destaca ainda a necessidade de amadurecimento emocional por parte da criança. “No primeiro setênio, ela ainda está aprendendo a viver no social, a ouvir o outro, a esperar sua vez, a lidar com as emoções”, explica a pedagoga. “Ela só estará pronta para seguir depois que conquistar essas habilidades, e também autonomia no que se refere ao uso do banheiro, à alimentação, ao vestuário e a cuidar de seus pertences.”

E o que acontece, então, quando se tenta acelerar esse processo? “A hiperatividade, hoje tão frequente nas salas de aula, é fruto de uma infância onde as crianças são paradas muito cedo em cadeirinhas e mesinhas”, afirma Pilar. “Isso as impede de coordenarem seus corpos, explorarem seu espaço e vivenciarem as coisas ao seu redor.” Por outro lado, crianças que tiveram a oportunidade de brincar na infância se mostram, segundo Pilar, bem mais calmas na movimentação corpórea em sala de aula, mais atenciosas e concentradas na aula na fase escolar. 

Nos Estados Unidos, a pesquisadora Erika Christakis foi buscar respostas quantitativas numa avaliação feita pelo Sistema Público de Educação do estado do Tennessee. Os pesquisadores investigaram o desempenho de estudantes do 2º ano. “Os resultados mostraram que as habilidades em alfabetização, matemática e linguagem das crianças submetidas à essa ‘preparação’ eram piores”, relata Erika em seu livro. “Provavelmente, a causa desse desempenho é a antecipação, para aqueles alunos, do estresse escolar.” Provocado, naquele caso, pelo ambiente carregado de estímulos (cartazes, letras, números pelas paredes) que elas não conseguiam compreender, pelos longos períodos sentadas em carteiras, pela exigência de atenção que elas não estavam prontas para oferecer. “O ensino intelectual precoce hoje está causando nas crianças toda sorte de doenças”, complementa Pilar. “Exatamente porque elas não estão sendo respeitadas em suas necessidades intrínsecas como o brincar.”

O que me leva de volta aos bons conselhos da minha avozinha. Quando eu insistia que queria aprender logo, ela me acalmava dizendo que eu teria todo o tempo do mundo para ler. “Por enquanto, aproveita para brincar, que para isso não terás a vida inteira.”

Ferdinando Casagrande é pai de Luca, do 1º ano, e Caio, do Jardim de Infância.

Doze Degraus para o desenvolvimento humano

Escola de Pais oferece oportunidade de se encontrar consigo mesmo

 

Um aspecto marcante, entre as tantas singularidades da Pedagogia Waldorf, é o fato de a escola ser um espaço voltado para a família, não apenas para a criança. Nela, pais e mães se integram ao dia a dia, ajudam com tarefas, organizam festividades, doam seu tempo para complementar e auxiliar na educação dos filhos – e dessa forma, também aprendem e se desenvolvem. Para tornar ainda mais efetivo esse processo de evolução, a Escola Waldorf Acalanto iniciou o movimento da “Escola de Pais”, uma iniciativa que organiza e implementa oficinas e formações a todos que queiram participar.

Este ano, a Escola de Pais está oferecendo uma formação intitulada “12 Degraus para o Desenvolvimento Humano”, com doze encontros mensais sobre diferentes temas. “Nosso objetivo é conscientizar os adultos sobre a importância  de proteger a infância, além de contribuir para o estabelecimento de uma renovação sociocultural a partir do despertar da vontade e da auto-educação”, explicam Elaine e Fidelis Neto, pais de Laís, do 1º ano, e de Aurora (que ainda não está na escola), e a professora Marijke, todos colaboradores da Escola de Pais. “A formação que iniciamos no primeiro semestre busca promover o encontro de cada um consigo mesmo.”

Nas reuniões mensais, a facilitadora Rosa Ângela Schoenmaker, terapeuta artística e aconselhadora biográfica, utiliza palestras, atividades artísticas, dinâmicas em grupo e individuais, sempre conectadas a uma imagem arquetípica inspiradora. “Cada reunião tem a sua imagem, como por exemplo ‘O Ninho’ e ‘Guardião dos Valores da Humanidade’”, explicam os colaboradores. 

Rosa, que é autora do projeto Escola Livre de Pais Universais, originalmente escrito para a Aliança pela Infância, conta com o auxílio das professoras Marijke, Rute e Anieelly, e dos pais Elaine e Fidelis na coordenação dos eventos. Até o momento já foram realizados três encontros. O quarto será no dia 25 de novembro e qualquer pessoa interessada pode participar. “Os outros oito encontros restantes serão realizados em 2018”, explicam os colaboradores. “Para participar, basta nos escrever por e-mail.”

A contribuição individual por encontro é de R$ 80,00. Casais têm desconto de 30%. Todo o dinheiro arrecadado é empregado no custeio da formação e no planejamento de novas atividades da Escola de Pais. O e-mail para inscrição é elainerq@yahoo.com.br.

Confira a seguir o depoimento de uma mãe que está participando do grupo.

Os Dozes Degraus

Por Débora B. Braz

Todos nós, mães e pais, buscamos sempre nosso melhor para criar os filhos. As dúvidas e incertezas, porém, são inevitáveis. Tentativas e erros são diários. E como estar preparado para os desafios de criar nossas crianças nos dias de hoje? Como fazer isso com amor, respeito e transmitir os conceitos que julgamos essenciais para a formação do ser humano? Essas foram algumas questões que me levaram a buscar novos aprendizados na Escola Livre de Pais Universais. Claro que, após as reuniões do primeiro, segundo e terceiro degraus, em encontros muito especiais, não encontrei todas as respostas (e nem esperava que fosse dessa forma). Pelo contrário, tenho até me feito mais perguntas… O que é ótimo: questionar-se é uma forma de evoluir. Cada encontro me traz uma nova oportunidade de resgatar as recordações da minha infância e olhar para a criança que há dentro de mim. Resgatar lembranças boas, que pretendo proporcionar também aos meus filhos. E relembrar outras que me fazem concluir que é preciso fazer mudanças para que o futuro seja diferente. Nesse exercício fica claro para nós o que realmente importa quando somos crianças, o que nos faz felizes e o que levamos para vida toda. Não importa o quanto os anos passem. Com as nossas crianças não será diferente! Mas as obrigações da vida adulta, por vezes, nos fazem esquecer como podemos encher o coração de nossos filhos e filhas de amor em momentos singelos do nosso dia a dia, mas que poderão ficar guardados para sempre nas memórias deles. A cada degrau temos uma oportunidade única de olhar para nossas ações, desvendar nossos medos e traçar os objetivos para efetivamente melhorarmos como mães e pais universais. Participar desse trabalho cercada por pessoas com a mesma vontade e, muitas vezes, com as mesmas dificuldades, anseios e dúvidas, me mostra que não estou sozinha, que também é difícil para todos, e que quando há troca de experiência e de ideias, tudo fica mais suave. E todo esse cenário é sempre conduzido de maneira muito especial, dando leveza aos encontros e nos proporcionando a vontade de agir, transformar e nos preparar já para o próximo degrau! Termino com um verso (leia abaixo) que, já no primeiro degrau nos trouxe a intensidade que teremos nessas doze etapas.

Débora B. Braz é mãe de Alice, do Jardim, e de Apolo do Maternal.  

Vossos filhos não são vossos filhos 

Kahlil Gibran

Vossos filhos não são vossos filhos.

Sãos os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.

Vêm através de vós, mas não de vós.

E embora vivam convosco, não vos pertencem.

Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos. 

Porque eles têm seus próprios pensamentos.

Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas.

Pois suas almas moram na mansão do amanhã.

Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.

Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós.

Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.

Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.

O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força,

Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.

Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:

Pois assim como ele ama a flecha que voa,

Ama também o arco que permanece estável.

Respiração –Velocímetro da Alma

Não há quem duvide da grandeza e da magnitude do processo de respirar para a sobrevivência do ser humano.

 

A respiração vai muito além das meras trocas gasosas de oxigênio por gás carbônico – esta é apenas uma das etapas que constituem esse meticuloso estado responsável pela preservação da vida – sim, ela “instala” a vida no ser humano – ao nascimento com a primeira inspiração – e “recolhe” a vida, no momento da morte, com a última expiração. Pela respiração entramos e saímos do mundo terreno. Se observarmos as três etapas do processo respiratório: inspiração (O2) – troca sangue – expiração (CO2) , podemos imaginar que o processo de vida e morte se repetem continuamente indicando que a nossa vida também teria o caráter de uma grande respiração: começa com inspiração e termina com expiração e tudo que acontece entre o primeiro e o último movimento são as “trocas”.

A respiração é a maneira que o homem tem de manter o contato do seu mundo interno com o mundo externo – e é isso que o mantém vivo.

O fato de ele poder se relacionar (trocar) com a natureza e os outros seres vivos é condição sine qua non para a vida e para um desenvolvimento caracteristicamente humano.

Explico: todos nós temos um mundo interno, ou seja, uma alma que nos dá capacidade de Pensar, de Sentir e de Agir – só nós conhecemos e dominamos este mundo que é singular, único para cada um. Porém ele só tem razão de ser e de evoluir se confrontar-se, relacionar-se com o mundo que está fora de nós – os outros seres, a natureza, os acontecimentos, o clima etc. É nesse processo que todos nós nos desenvolvemos e elevamos nossa própria condição humana. É daquilo que entra em nós do mundo externo que podemos elaborar “diálogos internos”, que depois se exteriorizam novamente para compor o mundo externo, impregnado de uma parte de cada um.

Podemos supor então que o ar, representante do mundo externo, se compõe de um pouco de cada um de nós e um pouco de tudo que existe na natureza, desde os elementos visíveis, ponderáveis, até os mais impoderáveis demandados pelas esferas cósmicas. Isso tudo a que chamamos de Mundo Externo, penetra no ser humano de maneira mais ou menos profunda, Segundo um consentimento e uma preparação de cada um, e está traduzido claramente no modo como cada pessoa respira.

Se tivermos abertura, liberdade e coragem para receber o mundo externo, nossa inspiração é grande, ampla, profunda; se tivermos insegurança, ansiedade, medo de contato, essa inspiração se encurta, fica superficial não conseguindo preencher 100% dos pulmões. Essa condição obriga a pessoa a respirar mais vezes para compensar as necessidades gasosas e, portanto essa respiração se torna mais rápida. Isso dificulta fisicamente uma boa oxigenação e, ao mesmo tempo, impede uma verdadeira percepção desse mundo externo, o que produz uma sensação anímica desagradável como uma incapacidade de lidar com as coisas práticas, reais, levando esses indivíduos a viverem num mundo fictício, com muita dificuldade de viver no presente – com tendência a idéias fixas, repetições – característica dos ansiosos. Algo semelhante, porém de modo inverso, pode acontecer com a expiração. Alguns indivíduos recebem o ar de maneira razoavelmente normal, mas são incapazes de soltar completamente aquela porção de si que está injetada obrigatoriamente no ar expirado. São pessoas com dificuldades de doar-se em todos os sentidos; guardam muitas coisas, tem muitas dificuldades para mudanças tendendo ao conservadorismo – é característico esse comportamento nos asmáticos, onde a dificuldade é a saída do ar (expiração) facilmente observada numa crise asmática, onde o indivíduo parece ter que soprar, ou seja, fazer força para soltar o ar que deveria seguir o caminho passivo. A respiração saudável em repouso, deverá reger um movimento de entrada e saída de ar num ritmo oscilante e harmônico apenas semi-consciente, e sem esforço algum.

Quando o ritmo respiratório acelerar, assim também se encontrará o nosso mundo interno (alma) num susto ou medo extremo, por exemplo, e quando dormimos, esse ritmo deverá ser mais lento.

A respiração evidencia uma parte da alma e participa como causa ou consequência em muitas patologias, especialmente aquelas onde está dificultado o contato com o presente.

A cura desses processos deverá incluir obrigatoriamente um trabalho com a própria respiração para que esta alcance uma maior profundidade, um ritmo mais harmonioso, trazendo novamente a sensação de pertencimento ao mundo terreno e a re-conexão com o tempo real e com o presente.

Fica implícito então, o vínculo que a respiração tem diretamente com o mundo interno, aquele que nos guia, que nos anima e que, em última análise, detém o controle que regulamenta a velocidade – ora acelerando, ora desacelerando o processo respiratório. Dizemos que através da respiração temos idéia do que acontece no mundo interior, ou na alma de uma pessoa, podendo mesmo assumir uma característica como se fosse o seu próprio velocímetro. Essa é uma poderosa ferramenta para médicos e terapeutas que ao observarem atentamente as características respiratórias, certamente terão boas informações sobre o funcionamento do mundo interno de seus pacientes.

Texto: Elaine Mascara Garcia da Costa

Fonte: Colibri – Boletim da Escola Waldorf Anabá Ano XIX – no. 3